LIDANDO COM O PRÓXIMO
APRENDENDO A DIZER NÃO

Geraldo J. Ballone

Dependendo do grau de submissão que sentimos em relação à opinião dos outros sobre nós mesmos, percebemos maior ou menor dificuldade em dizer não. As vezes essa dificuldade é conseqüência do medo de parecermos egoístas, gros-seiros, chatos, difíceis de lidar ou coisas assim. É fundamental para nosso bem-estar e para nosso senso de liberdade sabermos dizer não ou, caso contrário, podemos arriscar boa parte de nossa felicidade (e até da felicidade de nossos familiares) em função do outro.


Além das dificuldades que aparecem ao tentarmos conciliar a sobrecarga dos afazeres de tudo aquilo que nos pedem e que não tivemos coragem de dizer não, corremos o risco também de nos frustrarmos ou deprimirmos diante da sensação de estarem se aproveitando de nós. Outras vezes não conseguimos dizer não por temermos que, se recusarmos um pedido de alguém, essa pessoa vai deixar de gostar da gente, ou por temermos que o outro tenha alguma atitude agressiva.

Na realidade esses temores de que pensem algo pejorativo a nosso respeito, só por recusamos alguma coisa, é um sentimento que nasce primeiro dentro de nós mesmos e, em seguida, acabamos projetando nos outros como se deles se originasse. Indiretamente é um indício de insegurança ou, pior, de alto-estima baixa. Dizer sempre sim, por qualquer motivo que seja, pode trazer outros tipos de problemas. ConcordarDizer sempre sim, por qualquer motivo que seja, pode trazer outros tipos de problemas. Concordar só para ter a imagem pessoal melhor aceitável e depois descobrir que não podemos cumprir o prometido costuma ser muito pior que dizer um não decidido e educado logo de início. Concordar com tudo e perceber depois que estamos tendo de fazer alguma coisa completamente contrário à nossa vontade, pode gerar conflitos de conseqüências emocionais muito danosas. Ainda há o risco de fazermos alguma coisa contrariados e, portanto, muito mal feita. Sem dúvida, isso não vai melhorar nossa reputação e nem tampouco agradar os demais como pretendíamos.

Estando nossa auto-estima satisfatória, teremos consciência de que os outros, principalmente aqueles que convivem conosco, já têm razões de sobre para nos julgar positivamente, para reconhecerem nossa competência, capacidade e nossos valores independentemente de nossa pretensa servidão incondicional. Aliás, é bom que a opinião dos outros sobre nossa pessoa tenha outras razões de admiração além da simples servidão. Todo mundo tem uma certa necessidade der ser amado e admirado, mas essa necessidade é tão mais presente quanto mais dúvidas temos de estarmos, de fato, sendo amados e admirados. Ora, essas dúvidas surgem em pessoas inseguras e com algum prejuízo da auto-estima.

Há várias maneiras de dizer não sem depreciarmos nossa imagem pessoal. Arranjando desculpas mentirosas é a pior delas e não costuma funcionar por muito tempo. Um não, firme, incisivo e ao mesmo tempo educado e gentil é a maneira que melhor funciona. Frases do tipo “... gostaria muito de fazer isso para você, entretanto, infelizmente, já havia marcado um compromisso anteriormente...” Ou então, “...gostaria muito de fazer isso para você, entretanto, infelizmente, tenho que terminar algumas coisas antes e não poderei fazer o que me pede da maneira como gostaria...” ou, por exemplo “... eu teria imenso prazer em emprestar-lhe esse dinheiro se não estivesse completamente duro no momento...”

Os reais motivos para o não devem ser disfarçados por aquele que nega, tendo em vista dois fatores: primeiro devido à própria natureza humana e, em segundo lugar, o modelo dos papéis sociais. Vamos explicar: O que poderia acontecer se disséssemos, com sinceridade o real motivo para o não, tal como, por exemplo “... não me sentiria bem fazendo isso...” ou ainda “... preferia não fazer isso que me pede...” O outro, tal como nós mesmos, sempre se acha certo no direito de pedir, sempre acha que os demais poderiam ser colaborativos, sempre acha que não custa nada aos outros fazerem o que pedem, portanto, preservando o que achamos justos para nós, pareceremos ao outro estarmos sendo arrogantes, egoístas, com má vontade e coisas assim. Desista de achar que o outro entenderá e respeitará sua opinião sobre aquilo que nos daria melhor bem-estar, principalmente quando nosso bem-estar contraria o bem estar desse outro.

Em segundo lugar, o modelo dos papéis sociais implicam em desempenharmos socialmente atitudes já esperadas no contrato social. Dizer que não podemos fazer porque estamos sobrecarregados, que estamos desconfortáveis de alguma forma, que estamos em alguma desvantagem e por isso não podemos fazer o que nos pedem, embora até gostássemos de fazer, terá sempre um efeito muito mais justificável do que não fazer apenas porque não gostamos de fazer ou porque preferimos não fazer. A sinceridade absoluta não é uma postura socialmente bem compreendida, embora seja demagogicamente recomendada como mérito. A sinceridade só tem mérito quando não contraria expectativas.

À primeira vista essa orientação pode parecer um estímulo à mentira. Na realidade é mais um estímulo à convivência social. Alguns psicólogos que tratam do assunto recomendam que a pessoa seja assertiva, faça argumentações sinceras para não sofrer conflitos e não se achar mentiroso. Mas nós estamos estimulando a convivência social e incentivando a pessoa a dar-se bem com seu próximo.

Vejamos o caso de você dizer à outra pessoa “... seja franco e sincero; você poderia me emprestar algum dinheiro?”. O que você sentiria se, apesar de ter pedido (demagogicamente) sinceridade, esse alguém lhe respondesse “...não, não empresto dinheiro à você porque não quero emprestar, apesar de tê-lo...” ou então, “...não empresto dinheiro à você porque tenho por princípio não emprestar dinheiro aos outros...”? No primeiro caso, além de arrogante e egoísta, a pessoa parecerá também sovina, insensível e desumana, apesar de responder com a pura verdade, no segundo caso, além de arrogante (no direito de ser cheia de princípios), foi pior ainda por considerar você, essa pessoa tão especial, simplesmente junto com todos “os outros”.

Esse capítulo trata de APRENDER A DIZER NÃO e não COMO DIZER NÃO. Como dizer não, todos já sabemos, mas aprender a dizer não de forma a preservar nossa convivência com o próximo e, conseqüentemente, conosco mesmo, precisa ser aprimorado. Na realidade, trata-se de uma maneira de não fazer tudo o que nos pedem, sem ter que dizer não ostensivamente. Pode não ser politicamente correto mas funciona.

Enquanto alguns psicólogos são à favor da verdade absoluta, atribuindo à pessoa o direito de dizer não sem se sentir culpada, citando sempre motivos francos e sinceros, estamos proporcionando meios de dizer não sem que os outros julguem você culpado.

Para dizer não, algumas regras simples devem ser observadas:
1. Não comece pedindo desculpas. Isso poderá sugerir um eventual sentimento de culpa.
2. Pergunte a si mesmo se o pedido parece-lhe razoável e se você quer mesmo aceitá-lo ou não. Sempre que tiver dificuldade em se de-cidir, provavelmente sua vontade sincera é pelo não.
3. Se precisar de mais detalhes, peça-os antes de decidir.
4. Se chegar à conclusão de que deseja dizer não, faça-o sem rodeios.
5. Seja breve, dê sempre uma explicação, mas que pareça mesmo uma explicação e não uma série de desculpas.
6. Muitas vezes não basta dizer não. Se desejar aju-dar o outro (ainda que não queira fazer o que lhe pediu), ouça com atenção o que ela tem a dizer, exponha o motivo de sua negativa e veja se pode ajudar a encontrar outra solução para o problema.

Causas da dificuldade em dizer não?
Auto-Estima Baixa

Com prejuízo da auto-estima, fato que pode ocorrer tanto nos estados depressivos quanto nas personalidades com traços mais introvertidos e sentimentais, geralmente a pessoa se percebe de maneira auto-depreciada. Normalmente essas pessoas acabam se escravizando pela opinião dos demais a seu respeito.

Como todos nós temos uma tendência a projetar nos outros nossas opiniões, ou seja, entendemos como se fosse deles opiniões que são nossas, as pessoas com auto-estima baixa acreditam que os outros também vêm-nas negativamente. Quando nos sentimos chatos, desinteressantes e pouco confiáveis, temos a nítida impressão de que os outros também nos vêm assim. Uma tentativa (errada) de melhorar nossa imagem é procurando atender nosso próximo em tudo o que ele quiser da gente. Isso gera uma dificuldade enorme em dizer não.

Podemos tentar melhorar a auto-estima de várias maneiras. As duas principais são a medicamentosa, quando a auto-estima baixa é conseqüência de algum estado depressivo, ou a maneira comportamental, quando se trata de um traço de personalidade.

Comportamentalmente podemos tentar melhorar nossa auto-estima fazendo uma lista das coisas das quais nos orgulhamos. Quais nossos valores, nossas habilidades, nossas coisas boas? Façamos uma lista de nossas transformações para melhor ao longo dos anos. Todos nós temos coisas boas a lembrar, seja nosso próprio crescimento pessoal, espiritual, material, seja termos simplesmente supera-do o medo de água e aprendido a nadar, seja o nascimento de nossos filhos, enfim, listemos aquilo de bom que faz parte de nós ou que nos rodeia.

Lembremos que temos o direito de sentir orgulho de nós mesmos, das coisas que conquistamos e da pessoa na qual nos tornamos. Vamos adquirir o hábito de lembrar dessas nossas conquistas e entender que se alguém tenta nos humilhar estará, na verdade, expondo os próprios sentimentos de inferioridade. Vamos procurar entender que, na maioria das vezes, nós é que estamos nos permitindo sentir humilhados e não sendo humilhados de fato.

Medicamentosamente podemos melhorar a auto-estima quando nossa auto-imagem negativa é conseqüência de alguma alteração humoral ou afetiva, como são os casos, por exemplo, da depressão, do estresse, da tensão ou do esgotamento.

Insegurança

Muitas vezes temos dificuldade em dizer não, supondo que isso poderá resultar num severo prejuízo, como por exemplo, a perda da amizade, do emprego, da admiração ou da simpatia. Quando é nossa insegurança a responsável pelas dificuldades em dizer não, devemos lembrar que se não confiamos em nós mesmos, nossa própria postura diante dos demais poderá demonstrar esse acanhamento de caráter.

E como deixamos transparecer aos outros nossos sentimentos tão íntimos? Isso se chama comunicação inter-pessoal. Uma pequena porcentagem de nossa comunicação com o próximo se deve ao discurso ou à palavra. A maior parte dessa comunicação se deve à maneira com a qual as palavras são ditas, se deve ao tom, timbre, freqüência e entonação da voz e, finalmente, à nossa mímica corporal. De um modo geral, acredita-se que apenas 7% de nossa comunicação se deve à compreensão das palavras, 13% dependem da voz (entonação, etc) e 80% da linguagem corporal. Seja pelas palavras, pelo tom de voz ou pela linguagem corporal, nossa falta de auto-confiança sempre será anunciada.

Outra questão importante é o fato das pessoas se sentirem muito ansiosas ao desconfiarem que os outros estão percebendo sua falta de segurança. Para esses casos, a sinceridade talvez seja a solução. Diferentemente do que foi dito acima, nestes casos alivia muito sermos francos o suficiente para confessar ao outro estarmos sentindo grande ansiedade neste momento. Isso demonstra, ao lado da confissão de nossa ansiedade, uma coragem compensatória ao termo liberdade em anunciar estarmos sim “nervosos”. Esse aspecto de nossa personalidade pode nos fazer parecer altamente confiáveis aos demais.

Normalmente, o esforço para dissimular um “nervosismo” acaba por gerar grande tensão emocional, muitas vezes com repercussões físicas, tais como dores de cabeça, de estômago, na nuca, tontura, falta de ar, etc., e até sensação de desmaio nos casos mais sérios.

A insegurança também deve ser abordada por duas medidas principais. Tal como a auto-estima baixa, a insegurança deve ser abordada de forma comportamental e medicamentosamente. Comportamentalmente devemos pensar no desempenho de nosso papel social. Parecer que estamos com fome pode resultar mais em comida que estarmos com fome sem parecer, parecer que somos honestos rende mais crédito que sermos honestos sem parecer.

Os papéis sociais têm muito a ver com nossa linguagem corporal. A maneira como sentamos, como ficamos de pé, como olhamos as pessoas nos olhos, como somos generosos com sorrisos e atitudes amigáveis, enfim, como cuidamos de nossa empatia pessoal é fator decisivo para transmitir uma imagem segura de si e, conseqüentemente, nos sentirmos realmente seguros.

Ainda na questão comportamental, nosso discurso não deve conter frases tais como, “...não posso..., nunca vou conseguir..., não adianta...” Negatividade atrai negatividade, assim como positividade atrai positividade. Frases mais positivas, tais como “...tenho certeza de ... farei o possível...sou muito bom em...” ajudam a melhorar a segurança transmitida e, conseqüentemente, a sensação de segurança pessoal.

De um modo geral as coisas boas não costumam cair do céu em nossa cabeça, precisamos conquistá-las com algum esforço pessoal. A questão do pessimismo e do otimismo é mais ou menos assim. Temos que dedicar um certo esforço para pensar otimistamente. A pessoa otimista sente-se muito mais relaxada mental e fisi-camente. Com otimismo confiamos mais em nossa própria capacidade. Mesmo que as coisas nem sempre dêem certo só porque somos otimistas, pelo menos estará preservada nossa auto-estima.

Já vimos como sentir-se (e conseqüentemente agir) de modo negativo leva os outros a considerá-lo carente de auto—estima. Bem, felizmente o oposto é verdadeiro. Se você passa a impressão de uma pessoa confiante e otimista, os outros vão tratá-lo como tal. Em vez de um círculo vicioso, você criará um círculo benéfico.

Além de trabalhar os pensamentos e sentimentos, cuide para que sua aparência transpire auto-confiança; e você começará a con-fiar em si próprio cada vez mais. A primeira medida a adotar é uma linguagem corporal assertiva. A seguir preste atenção na al-tura e na entonação da voz.

Sentimentos de Culpa

A culpa é um dos sentimentos mais incômodos e do qual a maioria de nós sofre em maior ou menor grau, seja por algo que fizemos, seja por algo que deixamos de fazer. A sensação de culpa é, inclusive, a maior responsável pelo receio que temos de dizer não. Em geral os sentimentos de culpa só aparecem nessa seqüência aqui colocada, ou seja, primeiro a pessoa tem que ter auto-estima baixa, depois tem que se sentir inseguro e, finalmente, experimenta sentimentos de culpa.

Claro que todos nós cometemos erros no passado, seja por coisas que fizemos e não deveríamos, coisas que fizemos mal feito ou coisas que deveríamos e não fizemos. De certa forma, todos nos sentimos culpados de alguma maneira (exceto os sociopatas). Entretanto, conforme recomenda a sabedoria popular, “quando nos sentir pessimistas em relação a situação atual, devemos nos sentir otimistas quanto as condições de agir”.

Todas essas atitudes comportamentais para alívio do sentimento de culpa, também válido para a auto-estima e insegurança, só são eficientes quando não existe um transtorno afetivo ou do humor concomitante (tipo depressão, estresse, esgotamento ou afins).

Outra orientação que pode ajudar é procurar fazer sempre a distinção entre o ideal e o possível. O ideal seria se tivéssemos feito assim, mas infelizmente foi-nos possível fazer assado. O ideal seria que as coisas caminhassem assim, mas elas têm se encaminhado dentro do possível.

Dicas da melhor maneira de dizer não

Já que chegamos nesse ponto, onde concluímos ser melhor dizer não às vezes do que viver angustiado por ceder em tudo e para todos, mesmo contra nossa vontade, vamos ver quais seriam as regras para um não bem dito e preservador de nosso bem estar.

1. Nunca comece a frase com a palavra NÃO. Embora seja esse o resultado final de sua fala, deixe o outro descobrir por si mesmo, durante seu discurso, que o resultado será NÃO, mesmo antes de você concluir sua argumentação.
2. Use uma argumentação simples, objetiva mas que, dentro do possível, faça o outro ter a mesma opinião caso estivesse em seu lugar.
3. Jamais demonstre desconforto exagerado ao dizer não; um certo constrangimento é sempre desejável mas, exagerar no constrangimento não melhora a sensação de quem recebe o não e pode transmitir a idéia de culpa.
4. Sempre que possível deixe a idéia de que concordaria com o pedido se fosse possível, mas diante desse ou daquele impedimento, INFELIZMENTE, você não poderá aquiescer. Neste quesito pode ser aventada a possibilidade do adiamento, do tipo “...talvez em outra ocasião...”
5. Mesmo depois da negativa, continue tratando o outro com a mesma (ou mais) gentileza com que vinha fazendo. Esse quesito é importante na medida em que algumas pessoas irritam-se profundamente com a ousadia dos pedidos dos outros. Não se irrite.

Orientação Cognitiva para começar a dizer não

Sempre é bom começar sabendo dos maiores patrimônios de sua pessoa; o primeiro deles é a saúde, o segundo é a felicidade e o terceiro a liberdade. Geralmente nós só damos valor a qualquer um dos três quando os perdemos. De fato, é quase impossível pensar na existência de um deles sem os outros, entendendo a saúde como bem estar físico e mental.

Muito bem. Não sabendo dizer não, estamos sujeitos às frustrações de sermos obrigados a fazer o que não queremos, sujeitos ao esgotamento por sobrecarga, sujeitos à mágoa de nos sabermos explorados, enfim, aborrecidos por não estarmos exercendo nossa liberdade plenamente. Assim pensando, torna-se obvio a necessidade de privilegiarmos nossa saúde, bem estar, felicidade e liberdade, sabendo ainda que de nossa saúde pode depender a saúde de nossos entes queridos.

De modo geral, a despeito de termos liberdade de exercer a caridade como melhor nos aprouver, de sermos fraternos de acordo com nossa consciência, não podemos permitir que o anseio de outros, às vezes inesgotável, venha a comprometer substancialmente nosso valioso patrimônio que é a saúde. Portanto, saber dizer não é uma das medidas mais preventivas para preservação de nossa saúde e um legítimo direito de exercer nossa liberdade. Assim procedendo, estamos honestamente contribuindo para nossa felicidade.

©  2003 - Nova Era