A DIGESTÃO

Trecho do texto extraído do livro: A doença como caminho
“Você encontra a verdadeira alegria e felicidade na vida, quando você dá, dá, continua dando e nunca avalia o custo”.
Eileen Caddy, The Dawn of Change

O processo digestivo se assemelha ao processo respiratório. Através da respiração, nós captamos o ambiente à nossa volta, assimilando-o e devolvendo aquilo que não pudemos assimilar. O mesmo acontece com a digestão, apesar de esta ter uma relação mais profunda com a dimensão material do corpo. Através da digestão lidamos com as impressões materiais. Assim, a digestão abrange:

1. a captação das impressões materiais do mundo,
2. a discriminação do que é “suportável” e do que é “insuportável”,
3. a assimilação dos materiais benéficos,
4. a expulsão dos materiais indigeríveis.

Antes de abordarmos os problemas que podem ocorrer na esfera digestiva, será bom considerarmos o simbolismo dos alimentos. Se temos apetite por algo especial, esta é uma expressão específica de uma determinada afinidade, que revela algo sobre nós. A fome é um símbolo do desejo de ter, de introduzir em si mesmo, é a expressão de certa gula. Comer é a satisfação do desejo através da integração, através da ingestão e da satisfação.

Se alguém está faminto de amor, e essa fome não está sendo adequadamente saciada, ela torna a surgir no corpo como um apetite exagerado por doces. Este padrão alimentar, bem como a vontade de “beliscar” entre as refeições sempre é expressão de uma fome de amor que não foi saciada. Quando as crianças petiscam à noite, esse é um sinal bem evidente de que não estão se sentindo queridas. Também há pais que inundam os filhos de doces e demonstram com esse ato que não estão em condições de dar amor ao filho; por isso lhe oferecem uma compensação em outro âmbito.

As pessoas que pensam demais e realizam um trabalho intelectual sentem desejo de comidas salgadas e iguarias bem condimentadas. Homens de moral conservadora dão preferências a alimentos em conserva, produtos defumados, além de apreciarem chás fortes que tomam sem açúcar. Pessoas que preferem comidas bem temperadas, até apimentadas, mostram que gostam de desafios, mesmo quando estes são insuportáveis e de difícil digestão. O oposto acontece com os que adotam uma dieta sem sal e sem temperos. Essas pessoas se poupam de todas as novas impressões. Lidam medrosamente com os desafios do caminho. Esse medo pode chegar a ponto de terem de adotar uma dieta líquida que é a mesma que se dá a um bebê. Este fato mostra que a pessoa que sofre do estômago voltou a despreocupação típica da infância quando não havia a obrigação de decidir-se entre aceitar ou recusar qualquer coisa. Em outras palavras, essas pessoas consideram a vida adulta “difícil demais de engolir” ou “dura demais de roer”.

ENGOLIR

Depois que os alimentos são reduzidos a pequenos pedaços, engolimos o bolo formado pela saliva. Ao engolir, nós integramos, aceitamos; engolir significa incorporar. Durante todo o tempo em que algo fica em nossa boca ainda podemos cuspi-lo fora. Mas, quando engolimos, não é fácil reverter o processo. Pedaços grandes, no entanto, achamos “difíceis de engolir”. Na verdade, se o bocado for grande demais não podemos engoli-lo. Muitas vezes temos que engolir coisas na vida que nem sempre queremos.

É exatamente nesses casos que fica mais fácil engolir alguma coisa se lhe acrescentarmos algo líquido, especialmente se se tratar de “um bom gole”. Os alcoólatras mencionam alguém que bebe demais como “um bom copo”. O gole de bebida alcoólica serve para ajudar a engolir uma coisa “entalada”. É por isso que o alcoólatra substitui a comida pela bebida: ele troca a alimentação dura, sólida, difícil de engolir, pelo gole mais fácil, simplesmente bebendo da garrafa.

Há grande número de distúrbios que atrapalham a nossa capacidade de engolir, como por exemplo a sensação de ter um nó na garganta, ou até mesmo as dores de garganta. Nesses casos, o paciente deve fazer uma pergunta a si mesmo:

- “O que está acontecendo agora na minha vida que não posso ou não quero engolir?”.

NÁUSEAS E VÔMITOS

Depois que engolimos os alimentos e os aceitamos no nosso organismo, pode acontecer de eles serem de difícil digestão ou de pesarem como pedras no nosso estômago. Uma pedra é na verdade o símbolo de um problema. Todos sabem que os problemas pesam no estômago e podem estragar nosso apetite. Muitas expressões lingüísticas mostram essa analogia entre os processos físicos e os somáticos: Isso estragou o meu apetite, ou Quando penso naquilo me dá frio na barriga, ou ainda Sinto enjôo só de vê-lo.

A náusea sinaliza que recusamos algo. O ponto máximo da náusea está no vômito. Livramo-nos das coisas e das impressões que não desejamos, que não queremos assimilar nem integrar. Vomitar é uma expressão evidente de resistência e de recusa. É o “não aceitar”. Essa correlação se torna bem clara no caso dos vômitos durante a gravidez. No fato de vomitar se expressa a resistência inconsciente contra o filho, ou melhor, contra o sêmen do homem que a mulher não quis “incorporar”. Também podem ser uma recusa em aceitar o próprio papel feminino e em expressá-lo (maternidade).

O ESTÔMAGO

O ponto seguinte atingido pela alimentação que ingerimos e não vomitamos é o estômago, cuja primeira função é aceitar os alimentos. Ele recebe todas as impressões que provêm de fora e que deve digerir. Poder receber implica estar aberto, exige passividade e propensão no sentido de uma capacidade de entrega.

Ao lado da capacidade de recepção, o estômago cumpre outra função: a produção e distribuição do suco gástrico (ácido). Os ácidos atacam: ardem, mordem, corroem, são visivelmente agressivos. Uma pessoa que se aborrece e fica com algo atravessado no estômago diz: “Estou azedo”. Se não conseguir dominar conscientemente esse aborrecimento, nem transformá-lo em agressividade, ou seja, preferir engolir a própria raiva, sua agressividade se somatiza, e seu estado de ânimo azedo se transforma em acidez estomacal.

O estômago reage com um aumento do seu teor de acidez produzindo sucos corrosivos no nível físico numa tentativa de digerir e de lidar com sentimentos que simplesmente não são materiais.

É aí que o paciente tem problemas estomacais.

Falta-lhe a capacidade para lidar com seus aborrecimentos e com sua agressividade de forma consciente. A pessoa que sofre do estômago deixa totalmente de demonstrar sua agressividade (engolindo tudo) ou exagera na agressividade. É alguém que não se quer permitir ter conflitos. Sente saudade da infância livre de conflitos, embora não tenha consciência do fato.

Na maior parte dos casos em que se usam antiácidos estomacais, o máximo efeito que se consegue é um arroto que proporciona algum alívio, pois arrotar é uma expressão agressiva “para fora”. A pressão é aliviada.

A tendência básica de dirigir os nossos sentimentos para dentro, em vez de para fora, provoca com o tempo a formação de úlceras gástricas (perfurações na parede do estômago). Nesse caso, o estômago digere não algo que vem do exterior, mas a sua própria parede! A pessoa está digerindo a si mesma.

O que as pessoas com problemas estomacais têm de aprender é tornarem-se mais conscientes de seus próprios sentimentos, lidar de forma mais consciente com seus conflitos e digerir, também conscientemente, suas impressões. Os pacientes de úlcera também precisam conscientizar-se e admitir seu desejo infantil de dependência e segurança maternal, além de sua ânsia em serem amados e atendidos, mesmo quando tais necessidades estiverem muito bem disfarçadas por trás de uma fachada de independência, competência e orgulho.

É o estômago que, como sempre, revela a verdade.

Males estomacais e digestivos

No caso de males estomacais e digestivos, devemos nos fazer as seguintes perguntas:

1. O que eu não posso ou não quero engolir?
2. Algo está me roendo por dentro?
3. Como lido com meus sentimentos?
4. O que me deixa tão azedo?
5. Como expresso a minha agressividade?
6. Como fujo dos conflitos?
7. Existe em mim alguma saudade reprimida de um paraíso infantil, livre de conflitos, em que eu só seja amado e cuidado, sem precisar me esforçar para nada?

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