repartir o pão

Andando pela rua, avistei um menino.
Triste e com olhar perdido,
olhava uma vitrine.
Ali, estavam expostos alguns brinquedos muito coloridos.
Chamou minha atenção.
Agachando, me coloquei a sua altura, e perguntei:
- Estás com fome?
- Sim - respondeu, sem tirar os olhos dos coloridos brinquedos.
- Fique aqui mesmo - repliquei - vou buscar algo para você.
Fui até uma loja próxima, que vendia chocolates, comprei uma grande
barra de chocolate e voltei até onde ele se encontrava.
Passei a barra às suas mãos.
Ele, imediatamente, segurou a barra firmemente de encontro a seu peito,
não fazendo nenhuma menção de abrir e comer o chocolate.
Algo estalou em minha mente.
Estava errado em alguma coisa.
Assim, perguntei:
- Não vais comer o chocolate?
- Não - respondeu o menino, segurando ainda mais firme o chocolate.
Fiz um movimento em direção ao chocolate, com a intenção de abrí-lo,
dizendo que queria repartir com ele.
Fui surpreendido por um forte grito de negação.
Agora, eu estava encrencado. Os transeuntes que viram eu dar ao menino o
chocolate, já haviam passado.
Os que agora passavam, eram os que assistiram a minha tentativa de tirar
do menino o chocolate.
Assim, disfarcei, e saí de mansinho.
Fui até uma esquina, e, escondido atrás de uma coluna, aguardei.
O menino me buscara com o olhar, para ter certeza de que eu havia ido
embora. Ao certificar-se disto, caminhou em direção contrária.
Segui-o pela rua, até o momento que o vi entregando a barra intacta
a uma mulher, que, não tão mal vestida, recolhia o que julguei pudesse
ser transformado em dinheiro.
Uma barra intacta poderia ser vendida.
Um chocolate em pedaços, já compartilhado, não.
Este, então, é o significado de repartir o pão.
A partir de então, sempre que sou abordado por alguém pedindo algo ,
Ofereço um pedaço daquilo que eu mesmo esteja comendo, ou vou comer,
repartindo o pão em sua frente.
tenho recebido muitas recusas e pedidos de moedas, ao invés do pedaço
repartido do pão.
Não faz muito tempo, fui tomar um cafezinho em uma confeitaria.
Ao sair, observei um doce chamado mil folhas. Trata-se de um doce alto,
com finas folhas de massa intercaladas com doce-de-leite e cremes.
Pedi que embalassem para levar ao escritório.
Ao sair da confeitaria, alguns metros adiante, fui abordado por um homem
que disse:
-Por favor, me dê algo para comer!
Imediatamente, segurei meu doce firmemente contra o peito, e num
movimento rápido, retirei um dinheiro do bolso, colocando-o em sua mão.
Afastei-me do local, ainda segurando firme o doce contra meu peito,
protegendo-o, assim, da possibilidade de ter que repartí-lo.
Alguns metros mais, e me dei conta.
O que fiz eu?
Tentei voltar atrás, e encontrar este homem. Não o vi mais entre a
multidão.
- Que meleca!
Digo, que meleca estava minha camisa. Segurei, tão firmemente, aquele
doce de creme e doce-de-leite, contra meu peito, que, sem me dar conta,
amassei-o completamente, inutilizando-o, e a minha camisa.
O dinheiro que dei ao homem, compraria dois ou três doces daqueles. O
que eu estava protegendo?
Sim, Jesus está certo.
Repartir o pão, além de representar uma caridade mais autêntica, ainda
é mais vantajoso para o bolso.

by Jorge Luiz Brandt

 

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