Queimando navios

Ouvi dizer. Uma expedição de descobrimento das Américas viajou com 3 navios; aportaram nas novas terras e começaram a construir a nova civilização. Os navios ficaram ancorados a 300 metros da praia. Após 2 anos da chegada às novas terras, a saudade começou a aparecer na tripulação, saudades do passado, das famílias, do velho mundo. Mas a missão ainda não estava cumprida; a nova cidade ainda não estava construída. Os problemas aumentavam dia a dia e o comandante da expedição percebeu que teria de tomar uma medida drástica. Sábio, mandou queimar os 3 navios, que atiçavam o desejo de voltar.

Tenho visto pessoas queimando navios em suas vidas. Procuro fazer o mesmo e queimar navios todo o tempo. Vejo que deixei navios ancorados por muitos anos nas praias de minha vida. Minha terra natal foi um navio ancorado por mais de 30 anos a poucos metros da areia...Meus pais, meus familiares, amizades e relacionamentos, um emprego, uma namorada, uma empresa, uma casa, um diploma, uma carreira profissional. Tentadores navios.

Procuro uma razão para isto e vejo que sempre houve o medo envolvido nestes apegos. Medo de que alguma coisa não dê certo, medo de precisar de algo ou alguém quando me defrontar com algum obstáculo maior. Entendi que olhar para trás e enxergar um navio ancorado, pronto para zarpar rumo a meu passado, é uma tentação muito grande, tentação que por muitos anos cedi. Hoje, queimo meus navios.

Leitura relacionada: T-16.VII (Texto, capítulo 16, subtítulo VII - O fim das ilusões)

By Estevão

   

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