O Rei e o Rapazote
Adaptação de um conto dervixe por Shuiyozo Tokutake

Diariamente, de manhã, o rei saía a cavalgar em seu corcel branco, para observar a infinita riqueza das suas terras; aqui desabrochava uma nova flor; ali, um joão-de-barro tinha terminado a construção de uma casa; mais adiante, um grilo sorvia uma gotinha de orvalho, antes que o sol fizesse evaporar...
Sempre que atravessava uma ponte, logo após uma vila, o rei via um rapaz à margem do rio, lançando a sua rede de pesca. Nas várias tentativas, não conseguia pescar nada.
O rei seguia a sua cavalgada e à tardezinha, na volta, encontrava o jovem que continuava tentando pegar um peixe.
No dia seguinte, o rei tinha bolado um jeito de conversar com aquele mocinho. Em vez de sair como fazia todos os dias, o rei pediu ao seu jardineiro, algumas roupas emprestadas e vestiu aquela que estava mais surrada. Em vez de corcel branco, montou em um burrico pardo e saiu.
Chegando à ponte, lá estava o rapazote lançando a sua rede. O rei apeou do seu burrico e foi puxar uma conversa:
- Oi, o rio tá bom de peixe, maninho?
- Ah!, este rio, eu sei, tem peixe, mas ...
- Por que está desanimado, garoto?
- Venho aqui todos os dias pegar um peixe, a única coisa que temos para comer. Eu sou órfão de pai e minha mãe está enferma. Quero ver se pego pelo menos um peixinho para que minha mãe tenha o que comer.
- E porque você não fala com o nosso rei? Ele poderia dar-lhe uma mãozinha, não?
- Bem que gostaria, pois minha mãe diz que ele é muito bom e generoso. Todos os dias ele passa por aquela ponte. Hoje está atrasado!
- Então?, fale com o rei quando ele passar pela ponte.
- Ah, não! Quem sou eu para dirigir uma palavra ao rei? Ele não é uma pessoa igual a nós; eu seu onde é o nosso lugar.
- Meu filho, gostaria que eu o ajudasse em seu trabalho?
O rapaz concordou e ambos, juntos, lançaram a rede. Ao puxarem a rede, estava cheia de peixe, suficiente para comer e vender o restante.

Sem o Divino Interno, nada somos. Mas o Rei respeita nossa escolha de aceitar-lhe ou não a ajuda. Ele é Espírito e nós, um prolongamento material dele.

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