O
HOMEM QUE CRIAVA MONSTRINHOS
Havia um homem
muito mau que gostava de prejudicar as pessoas e não era nem
um pouco educado e elegante no relacionamento com seus semelhantes.
Cultivava pensamentos negativos, era muito vingativo e não
aceitava qualquer crítica ou sugestão de alguém
que, notando o seu procedimento equivocado, quisesse lhe ajudar.
Com o passar do tempo ele foi se tornando cada vez mais agressivo
com quem dele se aproximasse e, gradativamente, foi se distanciando
de todos, passando a viver muito sozinho.
Julgava serem más todas as criaturas e jamais proferia uma
palavra que denotasse compreensão, ternura ou carinho. Seu
coração não abrigava sentimentos nobres e ele
não conseguia compreender que precisava modificar seu modo
de sentir e de pensar.
Um dia ele adormeceu, sozinho como sempre, sob uma árvore frondosa,
à margem de uma estrada de terra que conduzia ao alto da montanha.
E mergulhado em sono profundo, teve um sonho:
Observava surpreso, um homem de olhar límpido e rosto agradável
que passava caminhando despreocupadamente em direção
à montanha. Atrás do homem, em fila indiana, uma porção
de criaturinhas que o seguiam alegremente, conversando animadamente
entre si. Eram pequenas no tamanho, tinham formas variadas, de cores
vivas e agradáveis aos olhos. Todas tinham aparência
bela e cativante e irradiavam uma irresistível energia, tão
terna e suave que prendia o olhar e a atenção de quem
as contemplasse.
A muito custo ele conseguiu desprender o olhar daquela cena tão
inusitada. Estando sentado decidiu levantar-se e ir atrás do
homem para indagar sobre aquelas formas de vida que o seguiam com
tanta alegria e satisfação. Mas não pôde.
No seu cérebro algo lhe dizia que devia ir, mas uma força
desconhecida o impedia, obrigando-o a retroceder.
Por alguns instantes ele relutou entre a vontade de seguir aquele
homem para saber das criaturinhas e a força descomunal que
lhe obrigava a agir em contrário.
Eis que, de repente, ele se volta e vê, atrás de si,
uma porção de criaturas de variados tamanhos, cores
escuras e negras, totalmente disformes e de horrendas aparências.
Movem-se desordenadamente e a cada movimento seu elas correm a posicionar-se
às suas costas, em fila indiana, como que para acompanhá-lo.
Ele acorda sobressaltado. Um suor frio lhe escorre pelo rosto. Sente
o coração bater em compasso acelerado. As imagens estão
bem vivas em sua mente e, pela primeira vez, ele se questiona tentando
entender a razão de sonho tão esquisito.
Por que aquele homem se fazia acompanhar de tão belas criaturas,
enquanto ele tinha detrás de si, as formas mais horrorosas
que alguém poderia imaginar? Esta pergunta se repete insistentemente
no seu íntimo, ecoando e se ampliando até ocupar todo
o espaço dos sentidos e da alma.
Em dado momento ele olha com atenção e percebe que no
sonho a estrada por onde o homem passara é exatamente aquela
onde se encontra. Avista ao longe a montanha em cuja direção
o homem seguira. Sente uma enorme vontade de ir à procura do
homem, mas decide aguardar.
Vê, ao longe, uma senhora que traz nos braços uma criança
pequena envolvida numa manta rústica e já velha, desgastada
pelo uso constante.
Nos braços da mãe a criança choraminga de fome
e de frio. Ele percebe que a pobre mulher tenta aconchegar a criança
ao peito, mas essa atitude maternal não alivia o padecimento
do pequeno ser. A criança apenas se consola por alguns instantes
e logo volta a chorar.
Pela primeira vez ele contempla uma cena tão comovente. Sente-se
tocado; invade-lhe uma compaixão nunca experimentada.
Num ímpeto ele chama a mulher e dá-lhe o alimento que
trazia em sua mochila. Ela recebe, agradecida, o alimento e senta-se
para satisfazer a fome de filho.
Enquanto mãe e filho saciam a fome ele apanha a sua coberta
e, numa atitude meiga e cortês, lança-a sobre as costas
da mulher de forma de proteger também aquela pequena e indefesa
criatura. A criança puxa para si a parte da coberta que lhe
toca e esboça um sorriso infantil de pura espontaneidade.
Ao observar estas cenas ele se deixa tomar pela mais pura e radiante
sensação de prazer e conforto espiritual. Apesar do
frio ele se desfizera da sua aconchegante coberta e, no entanto, se
sente contente.
Após saborear o alimento a mulher agradece repetidas vezes
e com o filho bem agasalhado e adormecido no colo segue em direção
à montanha.
Ele contempla, embevecido, aquela humilde mulher que segue confiantemente
com o filho nos braços. Se pudesse ver agora notaria o desaparecimento
de uma daquelas horríveis criaturas que sempre o acompanharam.
Uma única atitude benevolente, sincera e desinteressada fora
suficiente para destruir a tenebrosa figura do egoísmo.
Embora não consiga explicar ele se sente feliz e satisfeito.
Nunca recebera tanto em retribuição a um pouco que dera.
E sem incomodar-se com o frio deita-se para dormir ali mesmo, debaixo
da árvore frondosa, ainda preocupado com o mistério
do homem das belas criaturinhas.
Enquanto tenta conciliar o sono seus pensamentos divagam por extensões
variadas e infindas. Reavalia todos os fatos da sua vida, retroagindo
até a infância. Vem-lhe à mente a imagem da sua
mãe e então adormece ouvindo as suaves palavras que
ela lhe repetia sempre:
“... a felicidade geral, meu filho, não apenas o bem
individual”.
MENSAGEM: “Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és”,
(interpretação da lei “O semelhante atrai o semelhante”).
Bueno Brandão/MG, 27 de dezembro de 2007.
João Cândido da Silva Neto
|