Medo 2

Eu tinha mais ou menos 19 anos.
Morava sozinho em uma Capital, pagava aluguel, alimentação, 
roupas, transporte, festas inerentes à idade, viagens, etc...
Constantemente, gastava mais do que meu salário podia cobrir.
Tinha um grande amigo: Pedro Paulo.
Para mim, nunca deixará de ser um grande amigo.
Por morar com sua família, que me abrigava, amorosamente, 
para almoçar, jantar, e muito mais, pelo que sempre serei grato, 
Pedro Paulo dispunha de melhores condições financeiras também.
Assim, vez por outra, fazia um empréstimo.
Sempre pagava quando dispunha de condições.
Mudei de cidade.
Fiquei devendo ao amigo, se bem me lembro, cerca de cem, ou 
talvez duzentos, ou talvez quinhentos valores.
Não lembro ao certo.
Assim, sempre tive intenção de pagar.
Mas acontecia, que, quando tinha dinheiro, tinha sempre outras 
prioridades, quando não tinha, era porque não tinha condições.
Nunca esqueci de Pedro Paulo.
Passaram 25 anos.
Estou morando, agora, bem distante daquela cidade.
Já mudei muito. Desde então, andei por muitos lugares.
Sempre com medo.
Às vezes identificava a razão, mas na maioria das vezes, não.
Então, sonhava que estava andando na rua e encontrava Pedro Paulo.
Sentia, em sonhos, um misto de vergonha e medo.
Não tinha  forças para encarar o amigo.
Acordava me sentindo muito mal.
Muitas vezes, dizia a mim mesmo que tinha que pagar a dívida.
Comecei a ter medo de muitas coisas, sem razão aparente.
Mas não sabia nem mesmo como encontrá-lo.
Há tanto tempo, tanta distância.
Uma noite, durante  o estudo do curso, num momento em que 
trabalhávamos, em grupo, nossos medos, levantei-me e fui ao 
primeiro telefone que encontrei, e comecei a ligar para o 
número 102, pedindo informações dando seu nome.
Depois de um tempo, consegui localizar seu nome e seu telefone.
Agora, tinha o dinheiro, tinha as condições, mas tinha medo de ligar.
Liguei.
Uma voz atendeu; não era Pedro Paulo.
Perguntei a seu respeito, disseram que não estava, que ligasse 
depois e que deixasse recado.
Deixei um recado.
No dia seguinte, liguei outra vez.
Desta vez, estava em casa e atendeu ao telefone.
- O que quer, interrogou?
- Sinto-me mal, disse eu, e estou com medo. 
Preciso pagar minha dívida e tenho o dinheiro e as condições.
- Ah! É isto? Não precisa mais pagar. Ligue outro dia para conversar.
- Espere, insisti, dê o número de sua conta para que possa depositar.
- Jorge, disse-me, depois de quase trinta anos, liga e pede o 
número de minha conta? Pra que? Não precisa mais pagar.
Eu disse, então: 
- Não precisa mais?
- Não, disse ele, pode deixar.
Agradeci, e nos despedimos.
Passaram cinco ou seis dias.
Ainda sonhava com o encontro e tinha medo.
Não sabia o que fazer.
Liguei de novo:
- Alô! Podes me dar o número de tua conta? 
Preciso pagar para ficar em Paz.
- Mas é sério mesmo que quer pagar?
- Sim, respondi.
- Está bem, disse-me, ligue amanhã ao meio dia.
No dia seguinte, liguei ao meio dia.
Pedro Paulo atendeu.
- Olha, disse, pode depositar. E disse o número da conta e banco.
- Aceito o pagamento.
Assim o fiz.
No instante seguinte ao depósito, recuperei a paz, e perdi o medo.
Só, então, percebi, que todos os medos que sentia 
eram projeções do mesmo medo.
Agora, consigo reencontrar meu espírito.
Senti que, enquanto a expiação não fosse feita, isto não seria possível.
O medo foi feito por mim. Ele bloqueia a comunicação.
Não tenho mais medo ao andar na rua.
Não sonhei mais com encontros desagradáveis.
Nada mais tenho a temer.
Agora, estou aqui, só para ser verdadeiramente útil.
Estou contente por estar onde quer que Ele deseje, sabendo que Ele vai comigo.

by Jorge Luiz Brandt


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