A Verdade e a Mentira Possuem o Mesmo Encanto

   Quando dos céus ouvi que chegou o momento do meu casamento, e 
fui levado pelo anjo ao alto da montanha,  para escolher a minha noiva. 
Então ele mostrou-me duas virgens lindíssimas, uma ao lado da outra, e 
tão parecidas como a duplicidade de espelhos. 
E quando as vi pensei mesmo que uma fosse assim, o reflexo uma da outra. Mas observando um pouco mais, percebi que eram diferentes em seus movimentos, embora parecidos.
Quando as ouvi falar, percebi que as palavras e as vozes eram tão parecidas que eu não podia saber qual das duas falava primeiro, se não prestasse muita atenção nos movimentos de seus lábios. E embora uma falasse um ínfimo instante depois da outra, as vozes soavam aos meus ouvidos como um dueto muito afinado.
O anjo disse-me que deveria escolher uma delas, e com a que escolhesse, viveria eternamente.
Então pedi para que pudesse conviver pelo menos por um instante com cada uma delas em separado, para que conhecesse os seus pensamentos, já que fisicamente eram tão iguais. Mas ele disse-me que isso seria impossível, porque quem convive com uma, jamais poderia conhecer a outra.
E quando eu decidi que escolheria uma qualquer, ele adiantou-me que uma se chamava Verdade, e a outra Mentira. Então vacilei um pouco, e pedi para que ele me desse uma chance de pelo menos estar com as duas ao mesmo tempo por um instante.
Mas ele disse-me:
_ É também impossível conviver com as duas ao mesmo tempo. Elas não podem viver juntas no mesmo lugar. Embora se pareçam, são diferentes em tudo, em essência. Não nasceram ao mesmo tempo, nem tiveram o mesmo pai. A Mentira apareceu um instante depois que a Verdade chegou para reinar eternamente, e começou a imitá-la em tudo, inclusive em sua aparência. E desse dia em diante elas fazem uma separação entre luz e trevas, entre o bem e o mal, e de geração em geração, o mundo é enganado e massacrado por uma, enquanto a outra espera que o seu dia chegue, e ela se levante para reinar num tempo melhor que todos os tempos que se passaram...
Eu estava mais assustado, e perguntei:
_ Posso então pelo menos perguntar seus nomes?
_ Não adianta. As duas responderão a mesma coisa, se perguntadas. E se você se dirigir à Verdade chamando-a de Mentira, ela mesma dirá que você tem razão, porque sabe que quem confunde-a com a sua imitadora, é porque o seu coração é de fato da mentira, e ela jamais discute com quem esteja do outro lado.
_ Então eu posso falar com uma delas chamando-a de Verdade... – eu disse.
_ Se você chamar a Mentira de Verdade, uma ficará calada, e a outra tomará a tua mão, e o levará a caminhos que jamais descobrirá se são falsos ou verdadeiros, até que o dia da Verdade seja estabelecido...
Então eu disse:
_ Não poderás escolher por mim?
_ Não. A escolha é de cada um. Mas eu te digo que se você é da Verdade, ainda que vacile por um pouco, por fim escolherá aquela à qual pertence. Mas quem é da Mentira, não poderá viver sem ela, e a defenderá a todo custo, dizendo que uma é a outra, pois todos se dizem da Verdade.
_ Então não tenho escolha... – eu disse.
Então o anjo sorriu... E disse-me:
_ Não há mais tempo!... Escolha agora!...
Eu criei confiança, e também sorri, e caminhei até a que estava levemente mais perto de mim, tomei a sua mão, e saímos... E quando andamos, olhei a minha amada, e ela me abraçou, e recostou a cabeça ao meu peito e disse:
_ Desde a eternidade, eu sabia que me escolheria.
Eu a olhei, e sorri, e caminhei calado, e não arrisquei dizer seu nome. E hoje temos um filho, parecido com a mãe. Ele não recebeu nome, porque a minha amada não quer revelar de quem ele é filho ainda...
Porque vivemos mil anos, em silêncio...
Mas a outra, tem milhares de filhos... Milhões... Todos eles tem sobrenome de Verdade... Porque com esse nome é fácil sobreviver nesse mundo. É fácil erguer templos, fóruns, palácios... É fácil vender livros, fazer sucesso na televisão...

Dêem licença!... o meu filho me chama. Ele tem mais de mil anos, mas ainda é uma criança...

by Adelmario Sampaio

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