A Pedrinha

De aparência desleixada, ele sempre vinha até a livraria, pedindo às vezes para ouvir música, porque não tinha aparelho de som. Mesmo tendo nos outros os mais elevados propósitos, assim chamados espirituais, olhávamos esta pessoa com aquele ar de "melhor ficar de olho". Afinal, uma pessoa assim, é sempre suspeita. Pode tentar nos tirar alguma coisa.

Com o tempo, tornou-se ' De casa' . Conversávamos e ríamos juntos. Ele sempre transmitia alegria ao ambiente, e as pessoas que aqui freqüentavam haviam se habituado à sua presença.

Morava em uma barraca, às vezes à beira da praia, às vezes, se tivesse dinheiro, em algum camping. Trabalhava vendendo artesanato na rua, e às vezes sumia por longos períodos, e quando voltava, contava-nos sobre suas distantes viagens a outros estados. Não criava raiz alguma nos lugares por onde passava.

Um dia me surpreendi, quando ao chegar, cedo, ele já me esperava à porta da livraria. Disse-me:

- Vim para pedir perdão. Ontem estive aqui ouvindo música. Gosto de estar aqui e ouvir as músicas que vocês vendem. Então, olhei para uma pedrinha, e ela brilhou à minha frente. Senti um imenso desejo de tê-la, mas não tinha dinheiro. Assim, quando ninguém olhava, peguei e escondi-a em meu bolso, levando-a para mim. No entanto, quando estava indo para minha casa, algo começou a acontecer. Um grande sentimento de culpa. Eu tinha feito uma coisa errada. Tinha que devolver a pedra. Mas, como iria fazer isso?
Assim, andei dando várias voltas pela cidade antes de ir-me. Estava em grande conflito. Não tinha coragem de voltar e confessar meu erro. À noite, tampouco consegui dormir. O desejo de ter a pedra era muito forte. Ela me atraía com seu brilho, porém, a vontade de desfazer meu erro me pressionava.
Por isso, estou aqui, confessando meu roubo, devolvendo a pedra, e pedindo perdão. A pegra não mais me atrai agora. Se me perdoarem, estarei outra vez em paz.

- Sim, está perdoado. - Disse eu. - Tenho também que pedir perdão a você, pois eu também cometi um erro terrível, talvez maior que o seu. Desconfiei de você, mesmo sem lhe conhecer. Você poderia simplesmente ter deixado a pedra em seu lugar anterior, pois jamais teria sido notada sua ausência em meio a tantas outras. Mesmo que não a tivesse trazido de volta, não teríamos notado sua ausência. Isto demonstra grande coragem. A vitória dos princípios superiores sobre as forças antagônicas que nos pessionam. O desejo e a vontade. O bem, e o mal.

by Jorge Luiz Brandt

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