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A Moeda e o Coração
Maria conheceu um tarólogo, que logo indicou a sua amiga Jackie para que o procurasse, a fim de ajudá-la a entender suas dificuldades. Muito religiosa, ao entrar na sala destinada às consultas, perguntou a ele, usando um tom afirmativo: - Vocês, esotéricos, não acreditam em Deus. - Há algo em que acreditar que não seja em Deus? - respondeu ele. Iniciada a consulta ao Tarô, Jackie explicou que estava casada há vinte anos com José. José sempre fora um exemplo de marido. Trabalhava das sete horas da manhã até nove ou dez horas da noite. Bom trabalhador e bom investidor, juntara uma reserva sólida, além de obter imóveis, garantindo assim a estabilidade da família. Acontece que José decidiu parar de trabalhar. Comprou uma motocicleta potente, e só pensava em viajar pelo mundo de moto, aproveitando as delícias da vida. - E o que a preocupa? - interrogou o tarólogo. - Ora - afirmou Jackie -, José está colocando em risco toda a estabilidade da família, conquistada depois de longos anos de trabalho duro, já que não quer mais trabalhar. Estamos todos muito preocupados. - E de que estão vivendo agora? - interrogou. - Bem, disse Jackie, como já disse, ele é um bom investidor e acumulou muitos bens e dinheiro. - Então, por que te preocupas? - É que, segundo nossos cálculos, se ele não voltar a trabalhar, somente poderemos continuar com nosso padrão de vida atual durante cinco anos. Após este tempo, nossa renda diminuirá, e não poderemos mais manter nosso nível social. - Ao chegar, você disse que os esotéricos não tinham Deus. Você o tem? - perguntou o tarólogo. - Sim, afirmou. Sou muito religiosa e rezo todos os dias. Vou também à igreja aos domingos e durante a semana. Faço parte de obras religiosas e de caridade. - Sabes rezar a oração do Pai-Nosso? - perguntou. - Sim, afirmou Jackie. Eu a rezo todos os dias. - E você já escutou o que diz quando reza? - Como assim? - estranhou Jackie. - Você poderia rezar agora, em voz alta, para que possamos ouvir? Desconcertada, Jackie iniciou a oração, imaginando o que Deus pensaria de estar orando num ambiente onde se interpreta Tarô. No entanto, prosseguiu. - Pai nosso que estais no céu...O pão nosso de cada dia nos dai hoje... - Pare, - disse o tarólogo. O que você acabou de dizer? - O pão nosso de cada dia nos dai hoje, - disse Jackie espantada. - Pois bem, você disse que rezava todos os dias esta oração. Não adianta rezarmos e não ouví-la. Você pede a Deus o pão nosso de cada dia, porém já tens estocado o pão dos próximos cinco anos. Muito além do que precisas, tens no dia em que o pedes, e mesmo assim, temes que possa faltar. Olha as aves no céu... Seu marido trabalhou e mais nada fez. Por que temes agora o infortúnio? - E o que devo fazer? - questionou Jackie. - Se vocês são assim tão jovens e tem tanto a aproveitar, porque você não vai com ele? Passeiem, divirtam-se. Vocês podem ser muito felizes. - E o que pensariam as pessoas? Perguntou ainda. - O que pensa você? - disse então o tarólogo. Só existem duas coisas: a moeda e o coração. Na moeda, estão as preocupações e medos da falta. No coração, está o amor, e no amor está a alegria de Deus, a liberdade, a perfeição e a felicidade. O que vai escolher? Soube, tempos depois, que Jackie estava feliz e decidira pelo coração, sendo que aceitara compartilhar a alegria do marido. Passaram-se cinco anos. Andando na rua, fui abordado pela amiga de Jackie, que noticiou: - Sabe o que aconteceu ontem...? O marido de Jackie morreu num acidente aéreo sobrevoando o Pantanal. |
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